Microrganismos raros viabilizam cultivo de milho em solos afetados por excesso de sal

Arqueias extremófilas são um grupo de microrganismos adaptados a condições extremas. Estudo identificou que são capazes de aumentar a tolerância do milho ao excesso de sal no solo. Em experimentos, promoveram o crescimento vigoroso das plantas e elevaram sua tolerância fisiológica. As arqueias despontam como alternativa biotecnológica para reduzir os danos da salinidade e viabilizar o cultivo em solos degradados e considerados improdutivos. Bioinoculantes à base de arqueias poderão ser avaliados quanto à aplicação em sementes ou diretamente no solo antes do plantio. Tal estratégia pode contribuir para que culturas como o milho mantenham o desempenho produtivo também em áreas irrigadas com água salobra, situação comum no Semiárido nordestino. Uma pesquisa conduzida pela Embrapa, em parceria com a Brandeis University, nos Estados Unidos, identificou que arqueias extremófilas (grupo de microrganismos distintos das bactérias e adaptados a condições extremas) são capazes de aumentar a tolerância do milho ao excesso de sal no solo e permitir que as plantas cresçam de forma vigorosa mesmo sob condições de estresse salino. Os pesquisadores demonstraram que essas arqueias colonizam a rizosfera, a região do solo junto às raízes, marcada por intensas trocas químicas e biológicas. O trabalho foi publicado no periódico Environmental Microbiome. Os microrganismos foram isolados das raízes da erva-sal (Atriplex nummularia), planta naturalmente adaptada à salinidade e utilizada na fitorremediação de solos salinos. Após cultivo em laboratório, foram avaliados em plantas de milho. A cultura é estratégica para a produção de alimentos e altamente sensível ao acúmulo de sais no solo, o que compromete o crescimento das plantas e reduz a produtividade. Nos experimentos conduzidos em ambiente controlado, os pesquisadores observaram que, sob estresse salino, as arqueias reduziram os efeitos tóxicos do sal, permitindo que o milho mantivesse crescimento mais vigoroso e maior tolerância fisiológica em comparação com plantas não tratadas com arqueias. A análise por qPCR (técnica molecular utilizada para detectar a quantidade de microrganismos presentes em uma amostra) do gene 16S rRNA específico para arqueias confirmou a colonização bem-sucedida. A abundância desses microrganismos na rizosfera do milho aumentou proporcionalmente ao avanço da salinidade no solo. O sequenciamento do genoma completo identificou genes associados à produção de fitormônios (hormônios vegetais), como auxinas, e de osmoprotetores, substâncias que auxiliam no equilíbrio hídrico celular em ambientes salinos. O achado evidencia o potencial das arqueias de interagir com a planta e mitigar o estresse osmótico causado pelo sal. Nos ensaios, a presença desses microrganismos elevou a biomassa e preservou os níveis de clorofila mesmo sob altas concentrações de sal. O resultado reforça o potencial da tecnologia para fortalecer a estabilidade da produção de alimentos em áreas afetadas pela salinização. Diferentemente das bactérias, organismos mais conhecidos, as arqueias pertencem a um domínio próprio de seres vivos e se destacam pela elevada resistência a condições químicas severas. Potencial biotecnológico Segundo Itamar Melo, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente que coordenou o estudo, solos salinizados acabam excluídos da produção agrícola e se tornam um importante passivo ambiental, uma vez que há poucas tecnologias eficazes para sua recuperação. O pesquisador lembra que as principais culturas comerciais são sensíveis ao excesso de sal, o que limita ainda mais o uso dessas áreas. Segundo ele, a aplicação de microrganismos adaptados a ambientes salinos, que coevoluíram com plantas halófitas (naturalmente tolerantes ao sal), desponta como alternativa para reduzir os danos da salinidade e viabilizar o cultivo em solos antes considerados improdutivos. “O problema não se restringe ao Semiárido, onde cerca de 30% das áreas irrigadas são atingidas pela salinização. Está presente em várias regiões do Brasil e do mundo”. Melo salienta que a situação se agrava em locais de alta evaporação e manejo inadequado, como a irrigação com água salobra. “Nesse contexto, inoculantes microbianos à base de arqueias surgem como inovação promissora no campo dos bioinsumos e podem abrir uma nova frente para a agricultura em áreas degradadas”. O pesquisador João Paulo Ventura, com vinculação científica à Embrapa Meio Ambiente, onde desenvolveu sua tese de doutorado, liderou a pesquisa ao conduzir os experimentos e a análise dos dados do estudo. Segundo ele, os resultados mudam a forma como a ciência enxerga esses microrganismos. Para Ventura, o estudo demonstra que as arqueias não são apenas organismos capazes de sobreviver em ambientes extremos, como também podem atuar como aliadas estratégicas da agricultura sustentável. Até então, as interações entre plantas e arqueias eram pouco compreendidas e raramente exploradas, sobretudo pelas dificuldades de cultivo desses microrganismos em laboratório. O pesquisador afirma que os experimentos comprovaram que, quando inoculadas, as arqueias estabelecem colonização competitiva e bem-sucedida nas raízes do milho. “A abundância desses microrganismos aumenta à medida que se elevam os níveis de sal no solo, o que indica adaptação às condições adversas e potencial de aplicação em áreas afetadas pela salinidade”. Ainda de acordo com ele, os achados reposicionam o papel desses organismos. “De curiosidades da microbiologia associadas a ambientes extremos, as arqueias passam a ser vistas como ferramentas biotecnológicas concretas, com potencial para sustentar a produtividade agrícola e contribuir para a segurança alimentar em áreas afetadas pela salinização e pelas mudanças climáticas”, afirma. Impacto e desafio da salinização A pesquisa dialoga com um problema estrutural da agricultura. No Semiárido, especialmente na Caatinga, a salinização compromete a produção e a renda no campo. Levantamentos da Embrapa indicam que o Brasil possui cerca de 16 milhões de hectares de solos afetados por sais, com mais da metade concentrada no Semiárido nordestino. Entre 20% e 25% das áreas irrigadas da região já apresentam problemas de salinidade ou drenagem, impactando culturas como milho, feijão, algodão e sorgo. Em escala global, relatórios da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontam que 1,38 bilhão de hectares apresentam algum grau de salinidade e outro 1 bilhão está sob risco. Entre 20% e 50% das áreas irrigadas do planeta sofrem perdas de fertilidade e produtividade. Estimativas mais conservadoras indicam que cerca de 833 milhões de hectares já são afetados de forma moderada a severa. O impacto é particularmente crítico nas áreas irrigadas, responsáveis por grande parte da produção de alimentos em regiões secas e semiáridas. Entre 20% e 50% dessas terras apresentam níveis de sais capazes de reduzir a fertilidade do solo e a produtividade das lavouras. Os efeitos vão além da produção agrícola. Um mapeamento da Organização das Nações Unidas (ONU) associa a salinização do solo a impactos diretos sobre a segurança alimentar, estimando que cerca de 1,5 bilhão de pessoas vivem em regiões onde a salinização ameaça a estabilidade da produção de alimentos. Aplicações práticas no campo No curto prazo, os resultados indicam potencial para testes em condições reais de produção. Bioinoculantes à base de arqueias isoladas de ambientes naturalmente salinos, ou de consórcios microbianos adaptados a esse estresse, poderão ser avaliados quanto à aplicação em sementes ou diretamente no solo antes do plantio. A hipótese é que essa estratégia ajudará culturas como milho, feijão e hortaliças a manter o desempenho produtivo em áreas irrigadas com água salobra, situação comum no Semiárido nordestino. Uma vez integrada a práticas de manejo já consolidadas — como rotação com plantas halófitas (espécies adaptadas a ambientes com alta salinidade), cultivo mínimo e adubação equilibrada, por exemplo — a inoculação microbiana poderá reduzir os efeitos da salinização sobre as lavouras, aumentar a resiliência dos sistemas agrícolas e contribuir para a segurança alimentar e a renda no campo. O que é salinização do solo? É um processo de acúmulo excessivo de sais solúveis (como cloretos e sulfatos de sódio) nas camadas superiores do solo, o que reduz sua fertilidade e produtividade agrícola. Esse fenômeno pode ocorrer naturalmente — especialmente em regiões áridas e semiáridas —, mas é intensificado por atividades humanas, como irrigação inadequada, manejo hídrico deficiente e uso excessivo de fertilizantes. Como acontece •Climas secos e evaporação alta: a água evapora e os sais ficam na superfície. •Irrigação mal drenada: excesso de água sem saída adequada faz subir o nível freático, acumulando sais. •Uso de água com salinidade alta: irrigar com água salobra também tende a concentrar sais.

 

Uma pesquisa conduzida pela Embrapa, em parceria com a Brandeis University, nos Estados Unidos, identificou que arqueias extremófilas (grupo de microrganismos distintos das bactérias e adaptados a condições extremas) são capazes de aumentar a tolerância do milho ao excesso de sal no solo e permitir que as plantas cresçam de forma vigorosa mesmo sob condições de estresse salino. Os pesquisadores demonstraram que essas arqueias colonizam a rizosfera, a região do solo junto às raízes, marcada por intensas trocas químicas e biológicas. O trabalho foi publicado no periódico Environmental Microbiome.

Os microrganismos foram isolados das raízes da erva-sal (Atriplex nummularia), planta naturalmente adaptada à salinidade e utilizada na fitorremediação de solos salinos. Após cultivo em laboratório, foram avaliados em plantas de milho. A cultura é estratégica para a produção de alimentos e altamente sensível ao acúmulo de sais no solo, o que compromete o crescimento das plantas e reduz a produtividade.

Nos experimentos conduzidos em ambiente controlado, os pesquisadores observaram que, sob estresse salino, as arqueias reduziram os efeitos tóxicos do sal, permitindo que o milho mantivesse crescimento mais vigoroso e maior tolerância fisiológica em comparação com plantas não tratadas com arqueias.

A análise por qPCR (técnica molecular utilizada para detectar a quantidade de microrganismos presentes em uma amostra) do gene 16S rRNA específico para arqueias confirmou a colonização bem-sucedida. A abundância desses microrganismos na rizosfera do milho aumentou proporcionalmente ao avanço da salinidade no solo.

O sequenciamento do genoma completo identificou genes associados à produção de fitormônios (hormônios vegetais), como auxinas, e de osmoprotetores, substâncias que auxiliam no equilíbrio hídrico celular em ambientes salinos. O achado evidencia o potencial das arqueias de interagir com a planta e mitigar o estresse osmótico causado pelo sal. Nos ensaios, a presença desses microrganismos elevou a biomassa e preservou os níveis de clorofila mesmo sob altas concentrações de sal.

O resultado reforça o potencial da tecnologia para fortalecer a estabilidade da produção de alimentos em áreas afetadas pela salinização. Diferentemente das bactérias, organismos mais conhecidos, as arqueias pertencem a um domínio próprio de seres vivos e se destacam pela elevada resistência a condições químicas severas.

Potencial biotecnológico

Segundo Itamar Melo, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente que coordenou o estudo, solos salinizados acabam excluídos da produção agrícola e se tornam um importante passivo ambiental, uma vez que há poucas tecnologias eficazes para sua recuperação. O pesquisador lembra que as principais culturas comerciais são sensíveis ao excesso de sal, o que limita ainda mais o uso dessas áreas.

Segundo ele, a aplicação de microrganismos adaptados a ambientes salinos, que coevoluíram com plantas halófitas (naturalmente tolerantes ao sal), desponta como alternativa para reduzir os danos da salinidade e viabilizar o cultivo em solos antes considerados improdutivos. “O problema não se restringe ao Semiárido, onde cerca de 30% das áreas irrigadas são atingidas pela salinização. Está presente em várias regiões do Brasil e do mundo”.

Melo salienta que a situação se agrava em locais de alta evaporação e manejo inadequado, como a irrigação com água salobra. “Nesse contexto, inoculantes microbianos à base de arqueias surgem como inovação promissora no campo dos bioinsumos e podem abrir uma nova frente para a agricultura em áreas degradadas”.

O pesquisador João Paulo Ventura, com vinculação científica à Embrapa Meio Ambiente, onde desenvolveu sua tese de doutorado, liderou a pesquisa ao conduzir os experimentos e a análise dos dados do estudo. Segundo ele, os resultados mudam a forma como a ciência enxerga esses microrganismos.

Para Ventura, o estudo demonstra que as arqueias não são apenas organismos capazes de sobreviver em ambientes extremos, como também podem atuar como aliadas estratégicas da agricultura sustentável. Até então, as interações entre plantas e arqueias eram pouco compreendidas e raramente exploradas, sobretudo pelas dificuldades de cultivo desses microrganismos em laboratório.

O pesquisador afirma que os experimentos comprovaram que, quando inoculadas, as arqueias estabelecem colonização competitiva e bem-sucedida nas raízes do milho. “A abundância desses microrganismos aumenta à medida que se elevam os níveis de sal no solo, o que indica adaptação às condições adversas e potencial de aplicação em áreas afetadas pela salinidade”.

Ainda de acordo com ele, os achados reposicionam o papel desses organismos. “De curiosidades da microbiologia associadas a ambientes extremos, as arqueias passam a ser vistas como ferramentas biotecnológicas concretas, com potencial para sustentar a produtividade agrícola e contribuir para a segurança alimentar em áreas afetadas pela salinização e pelas mudanças climáticas”, afirma.

 

Impacto e desafio da salinização

A pesquisa dialoga com um problema estrutural da agricultura. No Semiárido, especialmente na Caatinga, a salinização compromete a produção e a renda no campo. Levantamentos da Embrapa indicam que o Brasil possui cerca de 16 milhões de hectares de solos afetados por sais, com mais da metade concentrada no Semiárido nordestino. Entre 20% e 25% das áreas irrigadas da região já apresentam problemas de salinidade ou drenagem, impactando culturas como milho, feijão, algodão e sorgo.

Em escala global, relatórios da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontam que 1,38 bilhão de hectares apresentam algum grau de salinidade e outro 1 bilhão está sob risco. Entre 20% e 50% das áreas irrigadas do planeta sofrem perdas de fertilidade e produtividade.

Estimativas mais conservadoras indicam que cerca de 833 milhões de hectares já são afetados de forma moderada a severa. O impacto é particularmente crítico nas áreas irrigadas, responsáveis por grande parte da produção de alimentos em regiões secas e semiáridas. Entre 20% e 50% dessas terras apresentam níveis de sais capazes de reduzir a fertilidade do solo e a produtividade das lavouras.

Os efeitos vão além da produção agrícola. Um mapeamento da Organização das Nações Unidas (ONU) associa a salinização do solo a impactos diretos sobre a segurança alimentar, estimando que cerca de 1,5 bilhão de pessoas vivem em regiões onde a salinização ameaça a estabilidade da produção de alimentos.

 

Aplicações práticas no campo

No curto prazo, os resultados indicam potencial para testes em condições reais de produção. Bioinoculantes à base de arqueias isoladas de ambientes naturalmente salinos, ou de consórcios microbianos adaptados a esse estresse, poderão ser avaliados quanto à aplicação em sementes ou diretamente no solo antes do plantio.

A hipótese é que essa estratégia ajudará culturas como milho, feijão e hortaliças a manter o desempenho produtivo em áreas irrigadas com água salobra, situação comum no Semiárido nordestino. Uma vez integrada a práticas de manejo já consolidadas — como rotação com plantas halófitas (espécies adaptadas a ambientes com alta salinidade), cultivo mínimo e adubação equilibrada, por exemplo — a inoculação microbiana poderá reduzir os efeitos da salinização sobre as lavouras, aumentar a resiliência dos sistemas agrícolas e contribuir para a segurança alimentar e a renda no campo.

 

O que é salinização do solo?

É um processo de acúmulo excessivo de sais solúveis (como cloretos e sulfatos de sódio) nas camadas superiores do solo, o que reduz sua fertilidade e produtividade agrícola. Esse fenômeno pode ocorrer naturalmente — especialmente em regiões áridas e semiáridas —, mas é intensificado por atividades humanas, como irrigação inadequada, manejo hídrico deficiente e uso excessivo de fertilizantes.

Como acontece

•Climas secos e evaporação alta: a água evapora e os sais ficam na superfície.

•Irrigação mal drenada: excesso de água sem saída adequada faz subir o nível freático, acumulando sais.

•Uso de água com salinidade alta: irrigar com água salobra também tende a concentrar sais.

 

 

Fonte: Norte Agropecuário