Estudo de pesquisadores da Embrapa Hortaliças (DF) propõe diretrizes para tornar a olericultura brasileira mais resiliente aos impactos do El Niño. O trabalho aborda as bases fisiológicas das plantas, as vulnerabilidades produtivas e as estratégias de adaptação para a produção de hortaliças no território nacional.
Os especialistas analisaram as bases fisiológicas e operacionais de diversas culturas para traçar estratégias de enfrentamento a uma sequência contínua de eventos extremos — como ondas de calor mais longas e intensas, chuvas volumosas e secas agrícolas.
A adoção das práticas propostas representa uma mudança estrutural no modo de produzir: “As recomendações propostas não devem ser enxergadas como uma opção pontual, mas sim como o início de uma transição na forma como se cultivam hortaliças no Brasil, por meio de sistemas mais resilientes e adaptados climaticamente”, sugere o pesquisador Marcos Brandão Braga.
Diagnóstico meteorológico e impactos fisiológicos
O trabalho faz um panorama da olericultura nacional e relata que a maioria das hortaliças consumidas necessita de temperaturas amenas (18 ºC – 25 ºC), boa qualidade da água e disponibilidade hídrica, além de não tolerar excesso de chuvas e estresse hídrico. O estudo apresenta também a caracterização meteorológica do El Niño, correlacionando os cenários de altas temperaturas com o aumento da evaporação, da demanda hídrica e da escassez de água. Essas condições elevam os riscos de salinização do solo e de surtos de pragas.
Em contrapartida, o cenário de chuvas intensas gera encharcamento e excesso hídrico, o que compromete o desenvolvimento das raízes e o ciclo de vida das plantas, além de aumentar a incidência de doenças fúngicas e bacterianas.
Vulnerabilidade dos grupos de hortaliçasDevido às distintas exigências térmicas e hídricas das espécies vegetais, o trabalho mapeou as fragilidades específicas dos principais grupos de hortaliças:
|
Estratégias de adaptação e práticas conservacionistas
Para reduzir as vulnerabilidades dos cultivos de hortaliças, os pesquisadores apontam seis eixos prioritários de atuação para os produtores:
1. Monitoramento constante: acompanhamento do risco climático e das condições locais.
2. Ajuste de calendário e genética: adoção de calendários agrícolas flexíveis, diversificação de culturas e uso de materiais geneticamente adaptados.
3. Manejo integrado de recursos: gestão conjunta de água, conservação do solo e sistemas de drenagem.
4. Manejo microclimático: proteção das lavouras para reduzir a exposição direta aos extremos térmicos.
5. Manejo fitossanitário orientado ao risco: monitoramento e controle preventivo de pragas e doenças fortalecidos pelo diagnóstico climático.
6. Validação de tecnologias conservacionistas: fortalecimento do cultivo mínimo e do Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH).
Braga relata que a adoção de sistemas conservacionistas reduz a temperatura e a amplitude térmica (diferença entre as temperaturas máxima e mínima registradas em um local durante um determinado período de tempo) na superfície do solo, amortece o impacto direto das gotas de chuva, favorece a infiltração de água e reduz a evaporação, o escoamento superficial e a erosão.
As diretrizes de adaptação tecnológica para a olericultura variam conforme os riscos climáticos de cada região brasileira, priorizando a irrigação localizada e o manejo da salinidade no Norte e no Nordeste, o controle de encharcamentos e doenças no Sul, e o uso de sensores de umidade, de telas anti-insetos e de cultivo protegido no Centro-Oeste e no Sudeste.
Complementando essas estratégias, o estudo sistematiza os principais desafios — como calor excessivo, déficit hídrico, chuvas intensas, salinidade, alta radiação e pressão fitossanitária — em uma matriz de resumo que associa cada risco aos grupos de hortaliças mais vulneráveis e aos respectivos eixos prioritários de resposta, os quais incluem desde o ajuste da época de plantio e a melhoria da drenagem até o manejo integrado de água, radiação e sanidade.
Além do El Niño: resiliência de longo prazoOs desafios climáticos enfrentados pela olericultura superam os limites temporais de episódios isolados do El Niño, alerta o pesquisador. A combinação simultânea de calor, alta demanda evaporativa, flutuações hídricas e pressão fitossanitária exige soluções integradas. “Por isso, a resiliência depende da integração entre genética adaptada, manejo eficiente da água, conservação e drenagem do solo, manejo do microclima, diversificação, cultivo protegido e gestão fitossanitária”, ressalta Braga. A estratégia de resiliência está detalhada em um estudo de autoria dos pesquisadores Marcos Brandão Braga, Samuel Cordeiro Vitor Martins e Carlos Eduardo Pacheco Lima, da Embrapa Hortaliças (Brasília, DF). |











